Sindicatos vinculam manutenção de
apoio a Dilma ao fim do ajuste fiscal — principais centrais do País
exigem mudanças na política econômica do governo para continuar a dar
suporte contra o avanço do impeachment no Congresso
Dilma, com Lula, durante abertura do Congresso Nacional da CUT, na capital paulista, em outubro de 2015 |
A presidente Dilma Rousseff terá de fazer uma escolha entre o apoio das
centrais sindicais, considerado crucial pelo Planalto para enfrentar o
processo de impeachment, e a manutenção da política econômica do ajuste
fiscal. Lideranças das três maiores centrais do País que, juntas,
representam 4,4 mil sindicatos, afirmaram que, depois de “segurar as
pontas” no apoio ao governo em 2015, apesar das medidas de restrições
aos programas sociais, a defesa estará condicionada a mudanças na
política econômica.
“O País não suporta mais esse receituário econômico, de ajuste. O
desemprego subiu e deve continuar subindo, com inflação acima de 10%
dificultando todas as negociações salariais. É claro que a Previdência
precisa ser discutida, mas não é um quadro urgente. Espero que o governo
não cometa o erro fatal de defender reformas previdenciárias e
trabalhistas num cenário tão difícil como esse começo de 2016”, disse o
secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e
ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre.
Braço sindical do PT, a CUT liderou, ao lado do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), todas as manifestações populares
de apoio a Dilma. Na manifestação de 16 de dezembro contra o
impeachment, diz ter levado quase 100 mil pessoas às ruas, número que
superou o ato anti-Dilma realizado dias antes.
Em todos os protestos, os movimentos sociais foram contrários ao
impeachment, mas críticos à política econômica do segundo mandato,
encarnada na figura do então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Os
ataques ao ajuste fiscal foram engrossados pelo ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
A recente troca de Levy pelo atual ministro, Nelson Barbosa, empolgou os
sindicalistas. Mas as primeiras declarações de Barbosa desagradaram. “O
Barbosa sempre teve uma visão mais positiva para a economia,
pró-investimentos e crédito. Estranhei a defesa dele das reformas
previdenciárias e trabalhistas numa hora dessas. Ele quis agradar o
mercado, mas isso é tiro no pé”, disse o presidente da Força Sindical,
Miguel Torres, que também comanda o Sindicato dos Metalúrgicos de São
Paulo.
Torres faz parte da direção nacional do Solidariedade, partido comandado
pelo seu antecessor na central, o deputado Paulo Pereira da Silva, o
Paulinho da Força (SD). Paulinho defende o impeachment, mas a Força
declarou ser contrária ao afastamento da presidente.
“Se ela cair, a confusão no País será ainda maior e isso será péssimo
para os trabalhadores. Agora está muito ruim, mas pode ficar pior. O
programa do PMDB é ainda mais pró-ajuste fiscal, pior do que o PSDB pelo
jeito. Mas o governo precisa ajudar também. Precisamos retomar
urgentemente o crescimento porque o Brasil está parando, com inflação em
dois dígitos e muita revolta com Dilma”, disse o líder da Força.
‘Risco’.
Pela União Geral dos Trabalhadores (UGT), o presidente
Ricardo Patah, que faz parte da direção nacional do PSD, disse que o
governo “corre riscos” se efetivamente apresentar reformas como o
estabelecimento de idade mínima para aposentadoria pelo INSS, além de
reformas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ao mesmo tempo em
que o processo de impeachment estiver em votação pela Câmara e as contas
da campanha presidencial sob análise do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE).
“O momento é delicado. Sou totalmente contrário ao impeachment, defendo o
governo. Mas as energias do País estão concentradas nesse debate. O
governo precisa concentrar esforços na retomada do crescimento, isso
ajudará todo mundo”, disse Patah. Segundo ele, o governo pode iniciar o
debate da Previdência pelo lado dos servidores federais. “Por que não
discutir a aposentadoria dos servidores? Precisa ser sempre reforma no
INSS, onde a maior parte dos aposentados recebe um salário mínimo?”
Negociação.
Para o presidente da Federação dos Comerciários do
Estado de São Paulo (Fecomerciários) e da UGT-SP, Luiz Carlos Motta, o
governo precisa buscar os sindicalistas para “atravessar” 2016. “Ela
precisa de nosso apoio e não dá para defender se as propostas forem de
mais aperto justamente na base da pirâmide. Ela só vai se sustentar se
não mexer nos direitos trabalhistas”, disse ele.
Entre as reformas defendidas pelo governo está uma que conta com apoio
da CUT, que é a livre negociação entre os trabalhadores e sua empresa,
opção que não faz parte da CLT. Mas mesmo a CUT entende que a medida só
pode sair do papel após discussão com as demais centrais. “O governo
precisa sentar e conversar com todos. Dilma precisa construir consensos,
não anunciar medidas sem negociação”, disse Nobre.
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