domingo, 3 de maio de 2020

Leitos de UTI devem acabar em maio
na maioria dos estados






A maioria dos estados brasileiros deve atingir neste mês a ocupação máxima dos leitos de UTI no Sistema Único de Saúde (SUS) por causa da epidemia do novo coronavírus.
No sistema privado, um número menor chegará ao limite de suas Unidades de Tratamento Intensivo em maio. Até o fim de junho, porém, a maioria dos estados deverá ter os leitos particulares e públicos lotados.
Durante o período de ocupação máxima, a falta de UTIs no sistema público pode atingir cerca de 20 estados e durar, em muitos casos, aproximadamente dois meses.
No sistema particular, com mais leitos proporcionalmente, a carência de vagas será de cerca de um mês.
Em ambos os sistemas, o tempo de internação em UTI de pacientes com a Covid-19 pode chegar a variar de 21 a 35 dias — o que torna a falta de leitos prolongada.
Mantida a tendência atual de ascendência da curva, o Brasil poderá registrar mais de 40 mil infecções diárias após a primeira semana de junho e um déficit de leitos de UTI acima de 20 mil ao final do próximo mês.






Simulador de Leitos Hospitalares (COVID-19) — As projeções foram feitas a partir de ferramenta criada por pesquisadores do Departamento de Engenharia de Produção e do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e alimentada regularmente com dados oficiais sobre a evolução da epidemia.
Com base em informações pregressas sobre o total de infecções e parâmetros reais a respeito do número de leitos, sua taxa de ocupação e o tempo médio observado nas internações, o modelo estima em quanto tempo o sistema pode saturar.
A ferramenta leva em conta também o perfil ajustado, por estado, de idosos com 65 anos ou mais e a velocidade média observada da transmissão do vírus, entre outros parâmetros que influem no total de internações.
O modelo faz ainda uma estimativa de preenchimento dos leitos gerais dos hospitais, utilizados por pacientes menos graves. Nesses casos, o risco de colapso do sistema é bem menor.
As infecções já registradas pela ferramenta projetam uma curva futura, cujo "espelhamento" mostra a diminuição dos leitos disponíveis.
As novas informações do dia a dia alimentam o modelo matemático, elevando sua capacidade de previsão ao longo do tempo.
Para consultar e fazer projeções com a ferramenta, os gestores de saúde ou qualquer pessoa podem acessá-la no endereço Simulador de Leitos Hospitalares (COVID-19).






De um modo geral, a expectativa é que a falta de leitos de UTI comece a ocorrer duas semanas antes no SUS do que no sistema privado.
A razão disso é que, além de atender cerca de 75% dos brasileiros, o SUS tem somente 1,4 leito de UTI, em média, para cada 10 mil habitantes. No sistema privado, são 4,9 leitos por 10 mil segurados.
Em alguns estados do Norte e do Nordeste, onde a oferta de leitos públicos é menor, maio será marcado pela ocupação máxima tanto dos leitos do SUS quanto dos privados.
No Sudeste, as vagas de UTI do SUS podem acabar neste mês em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas previsões, no entanto, podem ser alteradas no caso de estados e municípios passarem a integrar leitos privados ao SUS, como a cidade de São Paulo já faz.
No cenário atual, é preciso considerar também que, se por um lado as subnotificações de casos existentes antecipam a chegada do colapso, novos leitos gerais e de UTI dos hospitais de campanha incorporados ao sistema vêm postergando esse momento.
Assim, a data de ruptura dos sistemas de saúde público e privado pode oscilar em relação ao apontado pela ferramenta.
A estimativa também poderá ser alterada dependendo das medidas que forem tomadas em relação ao distanciamento social. Nos últimos dias, observa-se uma diminuição do isolamento, o que tende a acelerar a chegada do colapso.









Como funciona por dentro um quarto de UTI






As unidades de terapia intensiva (UTIs) são consideradas indispensáveis no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Ainda que a literatura médica aponte infecções leves ou assintomáticas na maioria dos casos da doença, as UTIs são responsáveis por receber os quadros mais graves da covid-19.
Levantamento recente feito da pandemia no Brasil aponta que cerca de 41,5% das pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por covid-19 acabaram precisando ser internadas em UTI. Destes, quatro a cada dez pessoas tiveram de usar respirador — situação em que o paciente fica sedado e inconsciente o tempo inteiro.
Médicos que atuam na linha de frente do combate à pandemia já perceberam, ainda, que o período médio de internação por coronavírus supera o de outras doenças e, consequentemente, a rotatividade nos leitos é mais baixa do que o normal. Em meio à aceleração dos casos diagnosticados dia após dia, esse cenário pressiona as redes hospitalares no País, a despeito dos esforço para ampliar, em caráter de urgência, a capacidade de atendimento.

O paciente da UTI — Às unidades intensivas, são destinados a pacientes com quadro de insuficiência respiratória grave e instável por covid-19. Ou seja, aqueles com risco de apresentar piora repentina e, por isso, demandam atenção médica 24 horas por dia. Na UTI, as equipes de saúde devem estar preparadas para intervir imediatamente. Entre os pacientes, há relatos de cansaço extremo ao realizar atividades simples ou até mesmo a sensação de estar se afogando.

Exames — Alguns indicadores são importantes na hora de o médico avaliar se há necessidade de internação, como a taxa de oxigênio no sangue (oximetria), retenção de gás carbônico (capnografia) e o estado dos pulmões (tomografia de tórax). Em casos graves de covid-19, é comum a saturação de oxigênio ficar abaixo de 90% e surgirem lesões pulmonares, chamadas de “vidro fosco”.

Equipamentos — A legislação brasileira lista 39 materiais considerados requisitos mínimos para o funcionamento da UTI. Como o coronavírus é considerado uma doença altamente contagiosa, também há unidades intensivas mais sofisticadas que dispõem de câmaras de pressão negativa para impedir a contaminação do ar. Segundo médicos intensivistas e gestores de hospitais, os equipamentos mais importantes no combate ao coronavírus são:

[1] Cama hospitalar: o ajuste de posição facilita determinados tratamentos; quando equipada com balança também ajuda a pesar o paciente sem deslocá-lo, o que é útil para detectar quadros de desidratação ou retenção de líquido.

[2] Monitor multiparamétrico: mede sinais vitais do paciente em tempo real (frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão arterial, saturação de oxigênio, temperatura).

[3] Bomba de infusão: dispositivo eletrônico que aplica de forma contínua fluidos (medicamentos ou nutrientes) previamente programados.

[4] Máscara de nebulização e cateter de alto fluxo: equipamentos não-invasivos que aumentam a oferta de oxigênio; usado em casos menos severos.

[5] Ventilador pulmonar mecânico (respirador): equipamento invasivo para realizar ventilação mecânica; usado em casos mais graves.

[6] Diálise: Procedimento que substitui a função dos rins; médicos intensivistas têm relatado intercorrência de insuficiência renal em até 20% dos pacientes internados por coronavírus.

[7] Desfibrilador e cardioversor: usados para corrigir emergências cardíacas.

[8] Câmara de pressão negativa: sistema que impede o ar “infectado” de sair e contaminar outros ambientes.





Profissionais de saúde — Por precisar de vigilância constante, pacientes são acompanhados por equipes multiprofissionais na UTI, sob coordenação de um médico intensivista. Com o coronavírus, o foco é em especialidades respiratórias, mas profissionais de outras áreas também são acionados para atuar em procedimentos do dia a dia e no tratamento de pessoas com comorbidades ou complicações específicas.
O paciente é acompanhado por uma equipe específica, mas também recebe visitas de médicos plantonistas a cada mudança de turno. Em alguns hospitais, a situação do doente chega a ser checada presencialmente quatro vezes por dia.

Por causa da covid-19, no entanto, há unidades que restringiram a visita a um profissional por equipe para reduzir a exposição ao vírus. Entre os equipamentos de proteção individual, os profissionais devem usar luvas, avental, máscara, óculos e face shield, com protocolos rígidos na hora de se “paramentar” e de retirar as peças.

Equipe multiprofissional (requisito mínimo estabelecido por legislação)

—> Médico diarista/rotineiro: um intensivista para cada dez leitos.

—> Médico plantonista: um para cada dez leitos, em cada turno.

—> Enfermeiros assistenciais: um para cada oito leitos. 

—> Técnico de enfermagem: um para cada dois leitos.

—> Fisioterapeutas: um para cada dez leitos.

—> Auxiliar administrativo: tem de ser exclusivo da unidade de UTI.

—> Funcionário de limpeza: tem de ser exclusivo da unidade de UTI para cada turno.

Tratamento — Embora estudos estejam em andamento, não existe vacina ou tratamento com resultados clinicamente comprovados contra o novo coronavírus. Entre as drogas que estão em teste há hidroxicloroquina, azitromicina (antibiótico para tratamentos de infecções respiratórias) e remdesivir (antiviral usado contra ebola).
Nas unidades intensivas, equipes médicas focam em tentar manter o paciente estável e tratar possíveis complicações — ações que variam de acordo com cada quadro. Levantamento aponta que cerca de 42% das pessoas internadas em UTI acabam precisando de ventilação mecânica para tentar sobreviver.

[A] Métodos não-invasivos — Em alguns casos, o paciente apresenta falta de ar mas ainda consegue respirar por conta própria. Para os quadros menos severos, os médicos utilizam métodos não-invasivos, aumentando a oferta de oxigênio através de máscara de nebulização ou de cateter de alto fluxo. O paciente fica consciente durante o tratamento.

[B] Método invasivo — Já nos casos mais graves, o paciente tem de ser submetido à ventilação mecânica -- ou seja, o respirador é conectado à traqueia do paciente e compensa a falta de atividade dos pulmões. Para isso, a pessoa precisa ser sedada e recebe relaxante muscular. Ela fica inconsciente durante todo o período de entubação.

Alta — Médicos intensivistas relatam que um paciente com coronavírus fica, em média, entre 10 a 14 dias na UTI. Em alguns casos a recuperação é mais rápida, com extubação — ou seja, a retirada do respirador — em três ou quatro dias. No entanto, também há registro de pessoas que chegaram a passar mais de três semanas internadas.
Em geral, ninguém vai direto para casa: após sair da UTI, o paciente é encaminhado para unidade semi-intensiva ou apartamento, antes de receber alta. Para deixar o hospital, os médicos devem estar seguro de que o quadro de saúde estabilizou.
Em internações longas, independentemente da doença, também é comum que o paciente desenvolva outros problemas, como perda de massa muscular. Nos casos mais graves, é necessário fazer fisioterapia para retomar a atividade plena dos músculos.