sexta-feira, 30 de outubro de 2015


O Ministério da Defesa exonerou do Comando Militar do Sul o general Antônio Mourão — O motivo: críticas que fez ao governo Dilma Rousseff e pelo fato de que uma homenagem póstuma a um chefe da repressão na ditadura ocorreu em um quartel sob sua jurisdição — Mourão é um dos mais respeitados comandantes militares do Exército





O general Antonio Hamilton Martins Mourão

O Comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, decidiu demitir o general Antonio Hamilton Martins Mourão, do comando Militar do Sul, e transferi-lo para a Secretaria de Economia e Finanças do Exército, em Brasília. O general Mourão, assim, perde o comando de uma tropa e passa a exercer um cargo mais burocrático. Mourão é um dos mais respeitados comandantes militares do Exército. A mudanças foi incluída num pacote amplo de remanejamentos de postos militares, mas foi a única motivada por evento político. A reportagem não conseguiu contato com Mourão.
A decisão de afastar Mourão do comando foi tomada em virtude das declarações dadas a oficiais da reserva na qual fez duras críticas à classe política, ao governo e convocou os presentes para "o despertar de uma luta patriótica". Em uma palestra na capital gaúcha, Porto Alegre, há pouco mais de um mês, o comandante militar do Sul fez críticas indiretas à presidente Dilma Rousseff e, ao comentar a possibilidade de impeachment de Dilma, disse que "a mera substituição da PR( presidente da República) não trará mudança significativa no 'status quo'" e que "a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção".
O general Mourão afirmou ainda que "a maioria dos políticos de hoje parecem privados de atributos intelectuais próprios e de ideologias, enquanto dominam a técnica de apresentar grandes ilusões". A gota d'água para o afastamento do general Mourão veio no início da semana, quando um general sob seu comando promoveu uma homenagem póstuma ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de torturar presos durante o regime militar.
O Comandante da 3ª Divisão de Exército, general José Carlos Cardoso, subordinado a Mourão chegou a expedir convites para a cerimônia realizada em Santa Maria, cidade natal de Ustra, que morreu dia 15 de outubro — Ustra foi chefe do DOI-Codi, um dos principais centros de tortura e repressão aos adversários do regime militar (1964-85). A presidente Dilma Rousseff foi presa e torturada nas dependências do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do 2º Exército) em São Paulo.
O ministro da Defesa, Aldo Rebelo, já havia conversado com a presidente Dilma Rousseff sobre as declarações do general há pelo menos dez dias. Na ocasião, Aldo relatou as conversas que vinha mantendo com o comandante do Exército sobre o caso de Mourão e de outras declarações de militares que estavam pipocando pelo País. A ideia era transferir o general Mourão de cargo — mostrando que ele perdeu o posto — para dar uma demonstração de que este tipo de postura não é aceitável por parte de um general de Exército da ativa. Para o ministro da Defesa, Mourão perdeu a condição de comando com a sequência de fatos. A proposta obteve a plena concordância da presidente.
A exoneração será um teste político para Aldo, que é do PC do B, partido que notabilizou-se durante a ditadura por promover uma guerrilha contra o governo militar.
Na quinta-feira (29.out.2015), após reunião do Alto Comando do Exército, a transferência do general Mourão foi efetivada, e para o seu lugar foi designado o general Édson Leal Pujol, que já foi comandante das tropas no Haiti e atualmente estava na Secretaria de Economia e Finanças do Exército, para onde vai Mourão. Na reunião do Alto Comando, o assunto foi tratado e houve recomendação do general Villas Bôas para que este tipo de comportamento seja evitado por todos.
Questionamento. O senador Aloysio Nunes, presidente da Comissão de Relações Exteriores, enviou ofício ao ministro Aldo Rebelo, questionando se o general Mourão estaria incitando os militares. O senador Aloysio Nunes se referia à fala do general na qual ele diz que "ainda tínhamos muitos inimigos internos, mas que eles se enganavam achando que os militares estavam desprevenidos". E emendou, provocando: "eles que venham!'".
O requerimento aprovado na quinta-feira (29.out.2015), pelo senador Aloysio Nunes pedindo esclarecimentos ao ministro da Defesa sobre o caso, fez com que o processo fosse ainda mais rapidamente deflagrado e o desfecho do caso, com o afastamento do general Mourão tivesse sido imediato. A rapidez da solução do problema agradou o Planalto, que não quer mais marola nesta onda de más notícias políticas que toma conta de Brasília.
Aldo Rebelo respondeu ao senador informando que "determinou ao comandante do Exército que tome providências com brevidade e rigor que o caso requer". Determinou ao general Villas Bôas ainda que "adote medidas necessárias visando assegurar que o Exército Brasileiro continue a se pautar no estrito cumprimento de sua missão constitucional e a transitar no seio da Nação com elevada credibilidade que a sociedade confere ás Forças Armadas". A resposta foi imediatamente encaminhada ao presidente da Comissão.
No Senado, Aloysio Nunes se disse "chocado" com as declarações atribuídas ao general Mourão. Para o senador, o militar deve ter sido motivado por indignação com eventos recentes relacionados à corrupção no governo. Mas condenou a atitude. "É claro que isso gera uma revolta geral com todos, não apenas os militares. Mas não é razão para um militar expor, especialmente em uma cerimônia pública, um ponto de vista como esse."
Os militares sabem que haverá solidariedade dos militares da reserva por causa do afastamento de Mourão, mas não esperam que haja repercussão entre o pessoal da ativa.





Nenhum comentário:

Postar um comentário