A Polícia Federal desarticula grupo
que fraudava concursos públicos — candidatos suspeitos pagavam à
organização criminosa dez vezes o valor do salário do cargo pretendido,
pelas respostas da prova
O grau de sofisticação do grupo era tão elevado que o ponto eletrônico
usado cabe na ponta do dedo indicador e se conecta ao celular do candidato |
A Polícia Federal (PF) deflagrou na quarta-feira, 21.out.2015, a
Operação Afronta, em São Paulo, no Paraná, Rio de Janeiro, em Alagoas e
Rondônia. A ação é resultado de investigação para desarticular uma
organização criminosa, estruturada para fraudar concursos públicos,
notadamente do Poder Judiciário, em todo o território nacional.
Segundo a PF, a fraude foi detectada pelo Tribunal Regional Federal da
3ª Região, que notou irregularidades no último concurso para os cargos
de analista judiciário e técnico judiciário e encaminhou os documentos à
PF para instauração de inquérito.
“Os candidatos suspeitos tinham prestado a prova em Sorocaba. Eles pagam
à organização criminosa dez vezes o valor do salário do cargo
pretendido, pelas respostas da prova. Para apoiar os trabalhos
investigativos a Polícia Federal usou o S.P.A.D.E., sigla para Sistema
de Prospecção e Análise de Desvios em Exames, software desenvolvido pela
própria Polícia Federal para subsidiar apurações de fraudes em
concursos públicos e exames”, diz nota da PF.
O sistema, afirma a corporação, é alimentado com os gabaritos dos
candidatos que fizeram a prova e varre as respostas em busca de
coincidências, apontando os candidatos que apresentaram maior número de
coincidências nas respostas e indicando se aquelas coincidências eram ou
não esperadas. Os relatórios do sistema são encaminhados
concomitantemente à perícia, para validação e análise estatística, e a
policiais, para que proceda à investigação criminal.
Os investigados responderão de acordo com sua participação, pelos crimes
de organização criminosa (art. 1º, § 1º, Lei 12.850/2013) e fraude em
certames de interesse público (art. 311-A do Código Penal).
A PF informou que o valor cobrado pela organização variava de acordo com
o contracheque da carreira escolhida pelo ‘candidato’ — se ele
pretendia um cargo público com vencimentos de R$ 10 mil, teria que
desembolsar R$ 100 mil para a quadrilha, ou seja, dez vezes mais. Pelo
menos 40 alvos estão sob investigação.
Segundo a PF, o grau de sofisticação do grupo era tão elevado que o
ponto eletrônico usado cabe na ponta do dedo indicador. Tão pequeno que,
depois da prova, o ‘candidato’ só podia tirar a peça do ouvido com uso
de um ímã.
Segundo a PF, na primeira parte da trama alguns integrantes do grupo se
passavam por candidatos apenas para ter acesso à prova e dela fazer
imagens. Depois, os ‘candidatos’ se retiravam do local da prova e
repassavam as imagens para o comando da organização que, então,
respondia todas as questões e, por meio do ponto eletrônico, transmitia
as respostas certas àqueles que permaneceram em sala.
O PASSO A PASSO DA ORGANIZAÇÃO QUE FRAUDAVA CONCURSOS PÚBLICOS
a) os líderes da organização monitoram a publicação de editais de concursos públicos;
b) publicado o edital, são inscritos no exame candidatos interessados em
ingressar na carreira mediante fraude e também os chamados “pilotos”,
membros da quadrilha que se inscrevem para fotografar o caderno de
questões com microcâmeras durante a prova;
c) no dia do exame, após fotografarem as questões e ter decorrido o
tempo de permanência em sala de aula, geralmente de uma hora, os
“pilotos” saem do local de prova e repassam as fotos das folhas de
questões ao líder da organização;
d) este, por sua vez, providencia a correção das questões com o auxílio de outros comparsas;
e) finalmente, as respostas são repassadas aos candidatos por meio de
“ponto eletrônico”, dispositivo intra-auricular de comunicação, que se
conecta ao celular do candidato.
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