quarta-feira, 8 de agosto de 2012


MENSALÃO
MPF poupou nomes que estavam na lista do publicitário Marcos Valério
Denúncia excluiu sacadores acusados no mensalão


A lista de réus no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) poderia ser bem maior se todos as pessoas que sacaram dinheiro do valerioduto tivessem sido denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF). Pelo menos 15 nomes a mais estariam entre os acusados no processo. Em 2005, Marcos Valério entregou ao MPF a lista dos que receberam esses recursos, num total de R$ 55,8 milhões. Nos autos, esse documento aparece como “Relação de pessoas indicadas pelo PT que receberam recursos emprestados ao PT por Marcos Valério através das empresas”.

Marcelino  Pedrinho  Pies
Entre os excluídos, há representantes do PT do Rio Grande do Sul. Na lista, aparece como sacador de R$ 1 milhão Marcelino Pies, ex-tesoureiro do PT gaúcho, e dois funcionários do partido aparecem como sacadores de R$ 1,2 milhão.

Na defesa que fez do publicitário Marcos Valério no STF, o advogado exibiu dois cheques e um recibo assinados em favor do PT do Rio Grande do Sul, por ocasião do Mensalão.


Relembrando a turbulência de 2005:

Um documento entregue pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza liga o escândalo [mensalão] ao Rio Grande do Sul. O ex-tesoureiro do PT gaúcho Marcelino Pies teria sido autorizado a sacar R$ 500 mil e R$ 700 mil em 2003 das contas de Valério, por indicação do então tesoureiro nacional do PT, Delúbio Soares.

Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, o empresário Marcos Valério de Souza revelou que representantes do PT gaúcho foram a Belo Horizonte receber dinheiro da SMP&B. Ao explicar uma lista de pessoas que teriam ganho dinheiro da SMP&B, apresentada à Polícia Federal, Valério disse "que Marcelino Pies era, então, tesoureiro do PT no Rio Grande do Sul e os valores foram recebidos por Jorge (até então não identificado) e Paulo Antônio Bassotto em Belo Horizonte". Bassotto é ex-funcionário do PT gaúcho.

Dois cheques e um recibo, num valor total de R$ 350 mil, derrubam a versão do PT gaúcho de que não mantinha relação com Marcos Valério de Souza. O recibo revela que o ex-funcionário do partido Paulo Antônio Bassotto reconhece que pegou R$ 200 mil em dinheiro de uma das agências de Valério. O petista  foi detido com uma mala cheia de reais (R$ 150 mil) em 2003 e apenas liberado depois que o advogado Jorge Garcia, veterano militante do PT, apresentou comprovantes e convenceu a Polícia Federal de que o dinheiro era para pagar serviços. Pressionado, o ex-tesoureiro do diretório gaúcho do PT Marcelio Pies admite que recebeu dois cheques cada um no valor de R$ 75 mil. Os valores teriam sido usados para pagar dívidas do diretório nacional do PT no Rio Grande do Sul às gráficas Impressul e Comunicação Impressa. Pies não confirma o repasse divulgado por Valério de  R$ 1,2 milhão.

Relembrando a Revista Veja - Edição 1956 -   17 de maio de 2006
Tarso Genro, as cestas básicas e o valerioduto:
as dívidas da campanha foram pagas com dinheiro ilegal.

O crime compensou
A primeira punição do caso mensalão é convertida em multa – e dividida em cinco suaves prestações

Às vésperas do primeiro aniversário do mensalão, surgiu enfim a primeira punição judicial do caso. Três dirigentes do PT no Rio Grande do Sul, com o objetivo de se livrar do processo e deixar de correr o risco de parar no xilindró, fizeram um acordo com a Justiça: aceitaram doar cestas básicas a uma instituição de caridade em Porto Alegre. A quantidade de cestas básicas é que chama atenção: uma por mês, durante cinco meses. E nada mais. No total, cada réu terá de desembolsar 1.750 reais, divididos em cinco suaves parcelas de 350 reais. Os três dirigentes são réus confessos. Eles admitiram que pegaram 1 milhão de reais no valerioduto e disseram ter usado o dinheiro para pagar despesas de campanha do PT gaúcho. O petista Marcos Fernando Trindade atuava como "mula" do esquema, carregando dinheiro em malas entre Belo Horizonte e Porto Alegre. Quando desembarcava na capital gaúcha, o dinheiro era distribuído pelo ex-presidente do partido, David Stival, e pelo ex-tesoureiro, Marcelino Pedrinho Pies. Agora, cada um vai pagar um salário mínimo a uma instituição de caridade durante cinco meses.
A desproporção entre o crime e a punição só não é maior que o constrangimento que o caso produz para o ministro Tarso Genro, o principal articulador político do governo, em Brasília. O dinheiro que o valerioduto canalizou ao PT gaúcho serviu para pagar despesas da campanha de Tarso Genro ao governo do estado, na qual perdeu a disputa para o atual governador, Germano Rigotto, do PMDB. Do total de 1 milhão do valerioduto embolsado pelo PT gaúcho, a maior parte chegou ao estado em malas. Mas 150.000 reais desembarcaram na arca petista por meio de dois cheques de 75.000 reais, ambos nominais a duas gráficas, a Impressul e a Comunicação Impressa. Em sua defesa, os acusados tentaram isentar Tarso Genro. Disseram que a quantia foi utilizada para saldar papagaios eleitorais, mas que nenhum centavo foi usado na campanha de Genro. As investigações, no entanto, mostraram que essa versão não tinha respaldo nos fatos. Descobriu-se que as duas gráficas brindadas com os cheques de Valério foram fornecedoras da campanha eleitoral de Genro ao governo.
O caso ficou mais incômodo quando se revelou que o Ministério da Educação, durante a gestão de Tarso Genro, entre 2004 e 2005, contratou as duas gráficas por 186.000 reais. O contrato, para produzir folders e material didáticos para o governo, foi feito sem licitação pública. O envolvimento de Genro com o valerioduto no Rio Grande do Sul veio a público há nove meses, mas é um embaraço permanente. Afinal, quando o escândalo do mensalão estourou, em junho do ano passado, Genro deixou o Ministério da Educação para presidir o PT. Chegou com ímpetos saneadores. Anunciou, na época, que o partido precisava passar por uma "refundação" e até propôs que o PT não permitisse que os mensaleiros petistas se lançassem candidatos na eleição seguinte. Como se sabe, não aconteceu nem uma coisa nem outra.
A confortável situação judicial dos mensaleiros gaúchos deve-se a duas razões. A primeira é que, como o mensalão estava sendo investigado pela Procuradoria-Geral da República, a Justiça gaúcha não podia aprofundar a apuração sobre a origem do dinheiro que abasteceu as arcas petistas no Rio Grande do Sul. Por isso, o promotor que cuida do caso, Ivan Melgaré, só pôde denunciar os dirigentes petistas pelo crime de formação de caixa dois. A segunda razão é que, quando um crime tem pena mínima inferior a um ano de prisão, como é o caso, a Justiça é obrigada a oferecer ao réu a substituição da prisão por uma pena alternativa, como a doação de cestas básicas. Os petistas dos pampas toparam na hora. Sugeriram apenas uma alteração, aceita pela Justiça. Em vez de pagar tudo de uma vez, como propôs o Ministério Público gaúcho, pediram para parcelar a dívida. Assim, todo dia 5 de cada mês, a antiga cúpula do PT gaúcho vai ao Lar de Santo Antônio dos Excepcionais, em Porto Alegre, e recolhe 350 reais aos cofres da instituição.

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