domingo, 1 de novembro de 2015


Setor siderúrgico vive novo ‘apagão’ — com mercado interno em queda e excesso de produção no mundo, empresas demitem e, como em 2008, começam a desligar altos-fornos — a Usiminas está interrompendo as atividades em Cubatão e deve demitir 4 mil funcionários a empresa vai paralisar a produção de placas de aço, mas manterá as atividades das linhas de laminação a quente e a frio






A combinação de demanda fraca por aço no mercado interno e excedente de produção global pode provocar uma onda de paralisações das siderúrgicas instaladas no País. Em setembro, a utilização da capacidade média da indústria encerrou em 61,3%, muito abaixo do índice de ocupação considerado ideal para o setor, de 80%. A média global, no mesmo período, ficou em 71,9%.
As siderúrgicas do País, que chegaram a exportar metade de sua produção nos anos 90, têm perdido ano a ano relevância no mercado internacional. Na crise de 2008, o setor travou e chegou a registrar, em janeiro de 2009, índice abaixo de 50% da capacidade de produção. Mas a recuperação foi rápida: em setembro do mesmo ano, o índice já havia voltado aos 80%. “Hoje é diferente. As indústrias vivem a pior crise de sua história e não há horizonte de recuperação no curto prazo”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil (IABr).
No início de 2009, sete altos-fornos, de um total de 14 em operação no País, foram desligados. Posteriormente, todos foram reativados. Neste ano, com o anúncio feito pela Usiminas de desativação da maior parte da unidade de Cubatão, o grupo terá três altos-fornos desligados — um na usina de Ipatinga (MG) e dois da usina paulista —, e outras companhias podem seguir o mesmo caminho, de acordo com fontes de mercado. O balanço do IABr, até junho deste ano, inclui 20 unidades dentro das usinas siderúrgicas paradas ou desativadas, incluindo altos-fornos (onde o minério de ferro é fundido e transformado em ferro gusa) e aciarias (onde o ferro gusa é transformado em aço), além de outros equipamentos.
A desativação de parte da fábrica da Usiminas em Cubatão, um dos principais polos siderúrgicos do País, é o retrato mais emblemático da crise do setor. A empresa também anunciou o corte de 4 mil trabalhadores (diretos e indiretos), logo após divulgar um prejuízo líquido de R$ 1,042 bilhão. Nos últimos 12 meses, até junho, o setor siderúrgico cortou 11,2 mil trabalhadores e 1,4 mil foram colocados em lay-off (suspensão temporária do contrato de trabalho). O IABr, que previa mais 4 mil demissões até o fim deste ano, já está revendo seus números para cima.
As indústrias são afetadas principalmente pela paralisia dos setores da construção civil, automobilístico e de máquinas e equipamentos, que respondem por 80% do consumo de aço, de acordo com o mercado.
O Brasil deve produzir este ano 32,75 milhões de toneladas de aço bruto, queda de 3,4% em relação a 2014. O consumo aparente deve recuar 13%, de 24,6 milhões de toneladas para 22,3 milhões de toneladas. “A queda no consumo interno não será compensada pelas exportações, uma vez que há um excedente global de 700 milhões de toneladas”, diz Lopes, do IABr.
A competitividade das indústrias do País, segundo Lopes, ainda é afetada pela China. Em 2014, a China respondeu por 52% dos 3,9 milhões de toneladas de aço importadas pelo Brasil. Entre 2009 e 2014, o Brasil dobrou o volume importado, espaço que foi ocupado pela China, que exporta 40% de sua produção. Em 2000, o produto chinês respondia por 1,3% das importações. “Se somar a importação indireta de aço (máquinas, equipamentos, peças automotivas e carros), o volume importado chega a 8,7 milhões de toneladas, superior à capacidade produtiva da Usiminas inteira.”
Crise interna. A Usiminas e outra gigante do setor, a CSN, têm alto endividamento. No caso da Usiminas, seus principais controladores — a italiana Ternium e a japonesa Nippon — brigam há mais de um ano. Já o grupo do empresário Benjamin Steinbruch, que possui dívida bruta de R$ 32 bilhões, renegociou o alongamento de R$ 5 bilhões e tenta vender parte de seus negócios — entre eles, a participação de 14% na própria Usiminas. A venda do terminal de contêineres Tecon, avaliado em R$ 1 bilhão, avançou, segundo fonte familiarizada com o assunto.
A Gerdau, controlada pela família Johannpeter, que registrou prejuízo de R$ 2 bilhões no terceiro trimestre, é considerada a melhor companhia do setor pelo mercado. A Ativa Investimentos acredita que, por estar mais exposta aos EUA, com melhor estrutura de capital, tem condições de sofrer menos com a crise.

INTERRUPÇÃO DAS ATIVIDADES
A Usiminas decidiu interromper temporariamente as atividades das áreas primárias da Usina de Cubatão, em São Paulo. Segundo comunicado da companhia enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o processo de desativação será gradual e deverá ser concluído num prazo de três a quatro meses.
"O referido ajuste objetiva reposicionar a Usiminas em um novo patamar de escala e competitividade perante um contexto econômico de deterioração progressiva do mercado siderúrgico", justificou a Usiminas, no documento.
A Usiminas, em nota, informou que as demissões chegarão a 4 mil empregos devido ao processo de desativação das áreas primárias da usina de Cubatão (SP). De postos diretos serão 2 mil desligamentos e indiretos, embora ainda esteja sendo mensurado, também são estimadas 2 mil demissões.
"Este ajuste no quadro funcional deverá ocorrer com mais intensidade no inicio de 2016, acompanhando o cronograma de desligamento dos equipamentos da usina, que deverá ser concluído em três ou quatro meses", esclareceu a empresa, no comunicado.
O presidente do Sindicato dos Siderúrgicos e Metalúrgicos da Baixada Santista, Florêncio Rezende de Sá, disse que as demissões poderiam chegar a mais de 8 mil empregados diretos e indiretos e informou que a Usiminas comunicou a decisão de interromper as atividades da unidade sem detalhar prazos e quantidade total. Ainda nos cálculos dele, a siderúrgica gera 10 mil empregos diretos e indiretos na região.
O sindicato vai aguardar que a empresa apresente um plano detalhado sobre as demissões, mas não descarta manifestações, greves e disputas judiciais.
A Usiminas tem consciência do impacto social desta medida sobre a empregabilidade na região. "A desativação foi necessária para a própria sustentabilidade da Usiminas como empresa e, como tal, movimentadora de uma cadeia produtiva estratégica para a economia", destacou a Usiminas.
A Usina de Cubatão já havia tido um de seus dois altos-fornos desligados em maio deste ano, bem como seu laminador de chapas grossas em setembro. "No entanto, os estudos da Usiminas apontaram que a alternativa mais viável, no atual cenário, era a paralisação das áreas primárias da unidade", segundo nota da companhia. Hoje, cerca de 40% do aço bruto produzido pela Usiminas vem dessa unidade.
Com a desativação das áreas primárias, a usina de Cubatão deixará de produzir placas, mas serão mantidas as atividades das linhas de laminação a quente e a frio, bem como as operações relacionadas a seu terminal portuário. A linha de laminação de chapas grossas continuará temporariamente suspensa. A empresa destaca que ainda está avaliando como suprirá essas linhas com placas. Segundo apurou a reportagem, o material deve vir de Ipatinga (MG) ou compradas da Companhia Siderúrgica do Atlântica (CSA).
Balanço. A Usiminas divulgou balanço no qual foi apontado prejuízo líquido de R$ 1,042 bilhão no terceiro trimestre do ano. No mesmo período de 2014, as perdas haviam chegado a R$ 24 milhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado foi negativo em R$ 65 milhões no período, ante um Ebitda positivo de R$ 357 milhões. Com isso, a companhia apresentou uma margem Ebitda ajustada negativa de 2,7%, sendo que era positivo em 12,3% no mesmo trimestre do ano passado e de 8,5% no trimestre imediatamente anterior.

PARA LEMBRAR
Cosipa foi privatizada em agosto de 1993
A privatização da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), em 20 de agosto de 1993, fazia parte do Plano Nacional de Desestatização, criado em 1990, durante o governo Fernando Collor. Com ela, outras siderúrgicas foram privatizadas, como CSN, Acesita e Açominas. As privatizações das siderúrgicas continuaram até o governo sair do setor, em 1994.
O processo de privatização da siderúrgica paulista foi conturbado. No dia do leilão, estudantes enfrentaram policiais na porta da Bovespa. O conflito terminou com 20 feridos. Muitos deles ensanguentados, jogaram sangue nos policiais. Mas a confusão não terminou aí. Arrematada pela Brastubo, do empresário Aldo Narcisi, por quase o dobro do preço inicial, descobriu-se depois que ela fez a operação para o Banco Bozano, Simonsen.
Na sequência, duas semanas depois, o controle da Cosipa passou para a Usiminas, também recém-privatizada. A transferência para o novo grupo levantou a questão de um possível monopólio no setor de aço. Na época, o grupo passou a controlar 62% da produção nacional de aços planos e 90% da produção de placas de aço.
Outro fator que chamou a atenção no caso foi a atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o principal acionista da Cosipa desde a década de 60. Antes da privatização, o banco estatal emprestou ao Banco Bozano, Simonsen US$ 278 milhões que acabaram sendo usados no leilão da Cosipa.





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