sábado, 2 de maio de 2015


Igor Rousseff, pelo parentesco, há sempre alguém querendo ajudá-lo

Nem o mais ácido adversário da presidente Dilma Rousseff pode acusá-la de usar o cargo para favorecer familiares. Nesse terreno Dilma pode se considerar uma felizarda, pois parente não se escolhe. Mas mesmo a presidente da República do Brasil não tem como garantir que seus parentes não sejam assediados por amigos, verdadeiros ou falsos, ávidos por lhes prestar favores, interessados ou não.

Igor Rousseff recebeu 120 000 reais da CNT entre 2012 e 2013. Na planilha acima, ele aparece como "fornecedor". Ninguém explica que tipo de serviço o advogado, que cria peixes no interior de Minas Gerais, prestava à entidade

Igor Rousseff, irmão da presidente Dilma, aparece como consultor da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) entre 2012 e 2013, período em que recebeu 120 000 reais em pagamentos, divididos em dez parcelas. Advogado, Igor também estudou história e jornalismo, mas nunca exerceu para valer nenhuma dessas profissões. Aposentado há três anos, atualmente ele cria peixes no interior de Minas Gerais. A CNT não quis explicar por que pagou a Igor Rousseff, que, por sua vez, não quis informar também por que foi pago.
O nome do irmão da presidente apareceu em planilhas com movimentações bancárias obtidas pela polícia ao investigar o desvio de mais de 20 milhões de reais do Serviço Social do Transporte (Sest) e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Trans­porte (Senat), entidades subordinadas à CNT. Igor, porém, não é alvo da investigação. A operação, batizada de São Cristóvão, referência ao santo padroeiro dos motoristas, recebeu recentemente da Justiça autorização para a quebra do sigilo das contas da confederação. Foi assim que os investigadores encontraram pagamentos ao irmão da presidente, o que, naturalmente, aguçou sua curiosidade. Não está clara a razão pela qual ele recebia da CNT. "Igor nunca me falou que já tinha trabalhado para a CNT", afirma o empresário Alberto Ramos, amigo e parceiro do pri­mei­ro-irmão no projeto de criação de peixes, empreitada iniciada há três anos. Talvez um parecer jurídico? "Ele não gosta de advogar", afirma a atual mulher de Igor, Valquíria Rousseff, funcionária pública. Seu último trabalho, conta Valquíria, foi em uma faculdade particular de Minas: "Ele fazia controle de patrimônio. Depois disso, aposentou-se".
A CNT não ajuda a elucidar o mistério. O diretor de relações institucionais da entidade, Aloísio Carvalho, informou primeiro que não havia identificado, em pesquisas internas, nenhuma ligação da CNT com Igor Rousseff. Depois de confrontado com os dados da planilha sobre os pagamentos mensais feitos ao irmão da presidente, a entidade deu a seguinte resposta: "A CNT não vai se pronunciar a respeito desse assunto". A pessoas próximas, porém, Clésio Andrade, presidente da confederação, admitiu que foi dele a decisão de contratar Igor Rousseff para prestar serviços de "consultoria na área de transportes". A natureza dos serviços prestados não foi revelada. Clésio, porém, disse que contratou o irmão da presidente "a pedido de um amigo comum", cujo nome não revela. O presidente da CNT garante que nem ele nem sua equipe tentaram, em troca dos pagamentos, usar o parentesco de Igor para conseguir algum tipo de benefício ou vantagem no governo.
Igor Rousseff já foi hippie, porteiro de hotel e controlador de voo. Mora numa casa simples em Passa Tempo, interior de Minas. Na campanha presidencial do ano passado, ele virou personagem da disputa ao ser apontado pelo então candidato Aécio Neves como funcionário-fantasma da prefeitura de Belo Horizonte entre 2003 e 2009, durante a gestão do petista Fernando Pimentel. Segundo a denúncia de Aécio, o irmão da presidente recebia sem trabalhar. Colocado subitamente sob os holofotes da curiosidade geral, Igor garantiu que, mesmo morando no interior, comparecia religiosamente à repartição na prefeitura de Belo Horizonte. Os amigos contam que Igor é frequentemente procurado por empresários interessados em contratá-lo sob qualquer pretexto. Naturalmente, o objetivo desses empresários é abrir um canal de comunicação com a presidente.
Dono de um dos maiores empreendimentos imobiliários de Belo Horizonte, o ex-banqueiro Alberto Ramos recebeu um sim de Igor ao convidá-lo para uma sociedade informal no projeto de criação de tilápias. "Igor é meu diretor nesse projeto", diz ele, que se nega a revelar quanto paga ao primeiro-irmão da República. Alberto não perde a oportunidade de aparecer ao lado de Igor Rousseff em Belo Horizonte. No projeto das tilápias, que serão criadas em cativeiro nos municípios mineiros de Cordisburgo e Morada Nova, ele pretende faturar por mês 3 milhões de reais. Alberto Ramos também acalenta o plano de construção de um aeroporto de cargas a pouco mais de 100 quilômetros de Belo Horizonte. Para ir adiante com esse projeto, Ramos precisa de autorização do governo federal. O empresário garante, porém, que não contratou Igor pensando em obter facilidades em Brasília. "Até agora não precisei pedir nada disso a ele", diz. Graças à parceria, no entanto, Ramos conseguiu o que muitos pe­sos-pesados da economia tentam, mas nem sempre obtêm êxito: uma reunião com Dilma. No segundo semestre do ano passado, ele foi convidado pela presidente para um almoço no Palácio da Alvorada. "Passei duas horas com ela, mas não pedi nada. Ela me chamou para agradecer pela amizade que eu tenho com o irmão dela." A presidente Dilma, por enquanto, não tem do que se queixar do irmão Igor ou de outros parentes. Que continue assim.


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