domingo, 21 de setembro de 2014


PT da Bahia desviou milhões de programa habitacional
Dona de ONG revela como funcionava esquema que irrigou o caixa eleitoral do partido e beneficiou um senador, dois deputados federais, o atual candidato a governador e um ex-ministro do governo Dilma

Dalva Sele Paiva - Presidente da ONG
que denunciou esquema de
desvio de dinheiro envolvendo o PT-BA
trabalha na prefeitura de Salvador

Desde 2010, o Ministério Público investiga o Instituto Brasil, uma ONG criada pelos petistas da Bahia. Em 2008, a entidade foi escolhida pelo governo do estado para construir 1 120 casas populares destinadas a famílias de baixa renda. Os recursos, 17,9 milhões de reais, saíram do Fundo de Combate à Pobreza. Os investigadores já tinham reunido provas de que parte do dinheiro desaparecera, mas não havia nada além de suspeitas sobre o destino final dele. O mistério pode estar perto do fim. Em entrevista a presidente do instituto, Dalva Sele Paiva, revela que a entidade foi criada para ajudar a financiar o caixa eleitoral do PT na Bahia, um esquema que funcionou por quase uma década com dinheiro desviado de “projetos sociais” das administrações petistas. A engrenagem chegou a movimentar, segundo ela, 50 milhões de reais desde 2004. O golpe era sempre o mesmo: o Instituto Brasil recebia os recursos, simulava a prestação do serviço e carreava o dinheiro para os candidatos do partido. Como os convênios eram assinados com as administrações petistas, cabia aos próprios petistas a tarefa de fiscalizar. Assim, se o acordo pagava pela construção de 1 000 casas, por exemplo, o instituto erguia apenas 100. O dinheiro que sobrava era rateado entre os políticos do partido.    

O candidato do PT ao governo da Bahia, Rui Costa, um dos políticos
envolvidos no esquema alimentado pela ONG Instituto Brasil:
mesada entre três e cinco mil reais

Ministério Público vai investigar desvios em ONG petista
Ex-presidente de instituto apontou beneficiários de fraude milionária: um senador, dois deputados e candidato a governador estão na lista
O Ministério Público da Bahia vai abrir uma nova investigação sobre o desvio de verbas de uma ONG abastecida com dinheiro público no Estado. A ex-presidente do Instituto Brasil admitiu que a entidade era usada para abastecer os caixas e os bolsos de petistas baianos.
Na lista revelada por Dalva Sele Paiva estão o senador Walter Pinheiro, o candidato do PT ao governo da Bahia, Rui Costa, os deputados federais Afonso Florence e Nelson Pelegrino e o presidente da Embratur, Vicente José de Lima Neto. O esquema movimentou cerca de 50 milhões de reais. A entidade recebia recursos por meio de um convênio com o governo de Jaques Wagner (PT), mas parte do dinheiro era desviada.
A promotora Rita Tourinho já havia iniciado uma investigação em 2010, mas os trabalhos não avançaram por falta de elementos que comprovassem o destino do dinheiro. A suspeita inicial surgiu por causa do método usado para repassar o dinheiro. "Nós questionamos por que não se fez um contrato, e eles disseram que foi um programa apresentado pela ONG", explica a investigadora.
Com a confissão de Dalva Sele Paiva, um novo procedimento de investigação será aberto já na segunda-feira. A investigação inicial era por improbidade administrativa, mas agora o caso deve incluir acusações criminais. "Está claro que há um crime", diz a promotora. A depender do resultado das eleições, o caso pode ser enviado à Procuradoria-Geral da República devido ao foro privilegiado dos parlamentares.
O presidente do DEM na Bahia, José Carlos Aleluia, afirmou que já havia suspeitas dos desvios há anos, mas se disse surpreso com a dimensão do esquema delatado pela dona do instituto. "Os deputados de oposição sabiam e alertaram o Ministério Público, mas faltavam os nomes”.
Para Aleluia, a engrenagem funcionou com o aval da cúpula do governo. "Não se faria algo de tanta dimensão se não houvesse o consentimento de quem está no comando".

O senador Walter Pinheiro

Senador petista culpa o partido em novo caso de corrupção
'É mais uma vez o PT pregando peça para cima de mim', afirma Walter Pinheiro, acusado de caixa dois eleitoral em sua campanha à prefeitura de Salvador
O senador Walter Pinheiro  sempre se orgulhou de estar do lado certo nas disputas políticas. Quando o PT mergulhou no mar de lama do mensalão, ele foi uma das poucas vozes petistas a falar contra a prática, batendo de frente inclusive com a cúpula mensaleira e seu próprio partido. Porém, o senador aparece no lado oposto do enredo. Dalva Sele, a presidente do Instituto Brasil, uma ONG criada por petistas para desviar recursos públicos, disse que parte da campanha dele foi financiada com dinheiro roubado dos pobres – recursos do Fundo de Combate à Pobreza que deveriam ter sido usados para construir casas para a população carente da Bahia.
Segundo Dalva, a campanha de Walter Pinheiro à prefeitura de Salvador, em 2008, foi bancada com o dinheiro sujo. Os móveis do comitê, as refeições dos cabos eleitorais, os carros de som, faixas, panfletos e o aluguel de uma Parati que transportava o candidato – tudo foi pago pelo  Instituto. Atual vice-líder do PT no Senado, Pinheiro nega as acusações, diz que foi enganado e culpa seu partido, o PT, pelo escândalo. A presidente do Instituto disse que a mulher de Pinheiro era quem buscava o dinheiro durante a campanha.
Em entrevista, ao reconhecer a montagem do esquema, ele condenou o próprio partido por tê-lo atirado num clássico esquema de caixa dois eleitoral. “Essa mulher (Dalva) pertencia às correntes do PT, as mesmas correntes que nacionalmente viviam se estapeando comigo por causa do negócio do mensalão. Ela não veio para a minha campanha pelas minhas mãos, ela veio a partir das relações delas dentro do PT.”

A seguir, o senador apresenta a sua versão para as acusações da presidente do Instituto Brasil.

INSTITUTO BRASIL – “Quando eu cheguei para a campanha de 2008 essa mulher já prestava serviço ao Estado. Nunca aceitei sentar para negociar com ninguém nada a respeito do que essa mulher fez ou deixou de fazer. Pelo que eu entendi, essa mulher utilizava esse negócio de campanha para traficar as coisas dela”.

RELAÇÃO COM DALVA – “Você me perguntou se eu a conhecia essa mulher. Eu disse: óbvio! Ela chegou na minha campanha trazida pelo PT. Essa mulher não veio para a campanha pelas minhas mãos ou pelas mãos da minha mulher, por ninguém. Ela veio a partir das relações dela dentro do PT.

CARRO ALUGADO – “Eu  peguei o pessoal todo da campanha e perguntei sobre essa história da Parati (carro que Dalva Sele afirma ter alugado com dinheiro de caixa dois do Instituto). Esse carro foi trazido, como qualquer outro, por um militante do PT que chega lá e diz: tá aqui um carro para rodar. Qual é o benefício que eu iria extrair daí?”

DINHEIRO PARA A CAMPANHA – “Esse dinheiro não veio para a minha campanha.  Um dos caras que trabalhou comigo me diz agora que foi funcionário do Instituto Brasil.  Essa pessoa veio na época da campanha, era funcionário do governo do Estado e tinha relação pessoal com ela. Eu nem sabia”.

MULHER – “A minha mulher não tem nenhuma militância de PT. É óbvio que ela se envolve nas campanhas. É natural que se jogue na campanha, mas ela nem sabe onde essa Dalva mora. Essa acusação me dói na alma”.

DEDO DOS MENSALEIROS – “Essa mulher pertencia às correntes do PT, as mesmas correntes que nacionalmente viviam se estapeando comigo por causa do mensalão. Todo mundo sabe o quanto eu apanhei dentro do PT por causa disso. Quase fui expulso naquela época do mensalão. É mais uma vez o PT pregando peça para cima de mim. Você confiar numa história de um partido...”

INDIGNAÇÃO – “Isso me dói muito. Você ser enganado, ludibriado por um esquema desses, por alguém que vem como militante, se aproveitando. Ela (Dalva) está querendo, no fundo, é extorquir o governo do estado. Aí vai jogando lama na vida de todo mundo”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário