domingo, 19 de novembro de 2017

Movimento Fora Povo



Policial atira bomba de gás lacrimogênio contra manifestantes nas imediações da
Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro durante votação sobre prisão de deputados


Elaborada nas pegadas da queda da ditadura militar, a Constituição de 1988 cercou os parlamentares de imunidades que protegiam o exercício do mandato. Os autores do texto constitucional não poderiam supor que o antídoto da imunidade viraria no futuro o veneno da impunidade. O Supremo Tribunal Federal poderia colocar ordem na anarquia. Mas preferiu omitir-se.
Estabeleceu-se a partir de Brasília uma atmosfera de vale-tudo que anula o movimento benfazejo inaugurado pela Lava Jato. Tinha-se a impressão de que o Brasil ingressara numa nova fase — uma etapa em que todos estariam submetidos às leis. Devagarinho, o país foi retomando a rotina de desfaçatez. Brasileiros com mandato continuam se comportando como se não devessem nada a ninguém, muito menos explicações. Os políticos brasileiros fundaram o Movimento Fora Povo.

A Lava Jato animava a plateia com a perspectiva de igualar todos os transgressores perante a lei. De repente, o vendaval que ameaçava os corruptos foi substituído pela mesma velha brisa de sempre — a brisa da impunidade.
Insatisfeitos com o foro privilegiado, os políticos agora perseguem a blindagem absoluta. O mais trágico é que eles fazem isso com a ajuda do Supremo Tribunal Federal, que, sob a presidência da ministra Cármen Lúcia, lavou as mãos no caso de Aécio Neves.
Ao permitir que Aécio recuperasse o mandato e se livrasse do recolhimento domiciliar noturno não pelo peso dos seus argumentos mas pela força do compadrio e do corporativismo, o Supremo acionou o gatilho que fez aflorar o lado bandido das Assembleias Legislativas.
Ao preferir servir refresco a Aécio Neves o Supremo instalou um clima de liberou-geral que resulta em absurdos. Os legislativos conspurcam a democracia. Políticos desonestos livram-se de imputações criminais não pelo peso dos seus argumentos, mas pela força do corporativismo. Simultaneamente, a sociedade é condenada ao convívio perpétuo com a desonestidade impune.

Enquanto Curitiba produz condenações em escala industrial, a Suprema Corte não sentenciou um mísero réu da Lava Jato.
A conversão de imunidade em impunidade já livrou a cara de deputados estaduais em Mato Grosso, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.
Todas as pesquisas de opinião informam que a corrupção está na lista dos problemas que mais inquietam o brasileiro.
A melhor arma contra o Movimento Fora Povo é o voto. O instinto de autoproteção dos corruptos transforma as urnas de 2018 numa espécie de raticida.




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