A expectativa é justificada. Este é o primeiro congresso desde 1997, e o presidente Raúl Castro o considera vital para "atualizar" os rumos do país. É também o primeiro sem a presença de Fidel, que renunciou ao cargo de primeiro secretário devido a problemas de saúde. A abertura coincide com o 50 aniversário da vitória na Baía dos Porcos, quando o país repeliu a invasão de exilados apoiados pelos Estados Unidos.
- Ou mudamos o curso ou afundamos - disse o presidente, ao anunciar a reunião dos membros do PCC.
Algumas das cerca de 300 propostas de mudanças que serão discutidas pelos mil delegados foram anunciadas no ano passado e já começaram a ser implementadas. Talvez a mais polêmica seja a demissão de 500 mil empregados estatais, como forma de reduzir os custos. Embora esteja sendo implementada, ela segue em passo lento e muitos apostam que a meta possa ser reduzida.
- O governo não conseguiu gerar postos de trabalho suficientes. Os impostos para trabalhar por conta própria são altos, e as profissões que permitem isso, limitadas - explica, por telefone, Oscar Espinosa Chepe, um economista e ex-diplomata do governo que passou a dissidente e hoje vive em liberdade condicional. - Querem negócios bonsais, que possam ser controlados.
De outubro de 2010 a março deste ano, o governo emitiu 180 mil licenças para trabalhadores independentes. Com isso, o país conta hoje com 295 mil mil licenças, cerca de 6% da força de trabalho. A distribuição de terras para agricultores e cooperativas independentes também começou, numa tentativa de aumentar empregos e a produção de alimentos, num país que importa de 60% a 70% do que consome. Mas críticos reclamam que faltam recursos aos agricultores, de equipamentos a sementes. Cuba acaba esbarrando na própria falta de recursos para cumprir uma das metas a serem discutidas: fazer com que o setor não estatal chegue a 35% da força de trabalho, comparados aos atuais 15%.
A libreta - ou a caderneta de racionamento, criada em 1963 - é outra fonte de preocupação. Com ela caminhando para a extinção, produtos começam a ser retirados da lista que permitia a compra por preços subsidiados. A caderneta permite comprar a cesta básica cubana por cerca de US$ 1 e, embora os alimentos não cheguem para o mês inteiro, seu fim é visto com apreensão pela população, assim como o dos bandejões que começam a fechar. Artigos de higiene pessoal, por exemplo, foram retirados da caderneta em janeiro. Um tubo de pasta de dentes, que custava 20 centavos de peso, passou para oito pesos, segundo moradores.
- Há muito nervosismo entre a população. Talvez, vendo o que acontece nos países árabes, o governo decida deixar tudo como está - observa Elizardo Sánchez, presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, referindo-se à onda de protestos no Norte da África e no Oriente Médio.
- Não vão querer aumentar o descontentamento social.
Os dissidentes reclamam do fato de o destino do país ser discutido por um só partido - o único legalizado em Cuba. E lamentam que questões como abertura política e direitos humanos não façam parte do programa, embora o congresso aconteça depois de o governo soltar 116 presos políticos desde o ano passado, muitos deles enviados à Espanha, como parte de um acordo intermediado pela Igreja Católica. Mas opositores não chegam a ver a medida como um sinal de distensão.
Segundo Elizardo, ainda há 48 dissidentes atrás das grades, além de pessoas submetidas a detenções curtas: são presas por algumas horas ou dias e, depois, soltas - o que para ele significa que "a máquina de prisões continua agindo".
A alegria de Félix Navarro Rodríguez com sua liberdade durou poucas horas. Preso na Primavera Negra, em março de 2003, foi um dos últimos presos de consciência a serem liberados, por se recusar a seguir para a Espanha. Solto no dia 11, organizou uma reunião em sua casa em Perico, na região de Matanzas. Mas, junto com outros ativistas, foi agredido e algemado. Levado para duas delegacias, foi solto algumas horas depois. Desde então, sabe que é vigiado.
- Aonde quer que eu vá, "eles" estão lá - conta.
Ex-professor de Física e Astronomia que perdeu a chance de lecionar por discordar do regime, Navarro acha que o país se tornou mais pobre nesses "oito anos e quatro dias" em que ficou preso. Ele pretende retomar o emprego como operário numa cooperativa de cana de açúcar, o mesmo que ocupava na época da prisão. Mas não vê o congresso com esperanças.
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